Exemplo de sala 11-03-13

Exemplo de sala 11-03-13

por Renan Maiorano -
Número de respostas: 4

Marcelo, Antonio e sala ...

Hoje o primeiro exemplo feito na sala de aula, variando a frequência de um sinal de 50 em 50 hertz, fizemos a observação da "distância" entre uma frequência e outra. Conforme aumentava a frequência dava impressão que essa "distância" diminuia.

Fiquei pensando e tentei trazer o experimento para o instrumento que eu mais conheço (to aprendendo rsrs) que é o violão e me surgiu a seguinte dúvida: O fato de aumentarmos a frequência e a "distância" entre elas ficar cada vez menor tem alguma relação com as "casas" do "braço" do violão? Por algum motivo as últimas "casas" possuem "distâncias" menores entre elas. Se sim, isso acontece com outros instrumentos também?

Abraço a todos!

Em resposta à Renan Maiorano

Re: Exemplo de sala 11-03-13

por Alexandre Camargo Guarnieri Suetholz -

Oi Renan,

isso acontece em todos os instrumentos de corda. A frequência tem a ver com o comprimento da corda e com a densidade da corda.

Já os instrumentos de sopro não tem isso tão claro como o violão. Eles acabam lidando com o "temperamento" da escala modificando distâncias entre si e tamanhos dos buracos.

Em resposta à Alexandre Camargo Guarnieri Suetholz

Re: Exemplo de sala 11-03-13

por Marcelo Queiroz -

Olás!

Essa discussão tem tudo a ver com os experimentos do monocórdio de Pitagoras que eu mencionei na aula de hoje. O que não podemos esquecer no entanto é que tanto o comprimento de uma corda quanto o comprimento de um tubo (no caso dos instrumentos de sopro) são medidos em cm ou m, então a relação entre estes valores e as frequências produzidas (medidas em Hz ou 1/s) ou os períodos de oscilação (medidos em s) tem que ser mediada por uma outra grandeza, que é a velocidade de propagação do som no ar (v≈344m/s).

Simplificando um pouco as coisas, e negligenciando outros fatores relevantes (como a densidade da corda ou se o tubo é fechado em alguma ponta ou nas duas), podemos dizer que o comprimento (λ) da onda sonora produzida no ar através destes meios é proporcional ao comprimento efetivo (L) da corda ou tubo; ou seja, teremos λ=KL onde K é uma constante que responde pelas coisas que negligenciamos. Lembrando da expressão v=λf (v=velocidade de propagação, λ=comprimento de onda, f=frequência) vemos que a frequência será f=v/λ=v/(KL). Dava até para irmos além e negligenciarmos inclusive a velocidade (constante) do som, e dizermos simplesmente que a frequência produzida é proporcional ao inverso do comprimento do tubo ou corda. O importante nessa brincadeira é que todas as coisas negligenciadas permaneçam constantes (o que nem sempre é verdade).

Ao pressionarmos a corda em algum lugar estamos efetivamente reduzindo o seu comprimento, e isso se aplica tanto para instrumentos sem trastes (como violinos) quanto para instrumentos com traste (o traste no fundo é um facilitador da afinação, que permite a gente apertar no "lugar errado" e ouvir a frequência associada ao "lugar certo", que é o lugar do traste; não é à toa que violonistas clássicos frequentemente tocam sobre os trastes do violão, o que amplia os efeitos musicais disponíveis). Nos instrumentos de sopro, ao abrirmos sucessivamente os furos a partir de uma das pontas estamos também efetivamente reduzindo o comprimento do tubo, então neste tipo de digitação podemos pensar exatamente como no caso das cordas (mas esse raciocínio irá "quebrar" nas digitações que deixam furos abertos entre dois ou mais dedos fechados (fork fingerings), digitações estas que possuem uma análise mais complicada).

Voltando à questão das escalas, nosso violão ou guitarra possuem trastes posicionados para gerar uma escala de semitons, ou seja, para que as frequências associadas a duas "casas" adjacentes tenha um quociente igual a 2^(1/12). Vamos chamar de f0 e l0 a frequência e o comprimento da corda solta, e f1 e l1 a frequência e o comprimento da corda um semitom acima. Se f1/f0=2^(1/12) e os comprimentos são inversamente proporcionais às frequências correspondentes, então l0/l1=2^(1/12) (as constantes desconhecidas se cancelam!), ou ainda l1=l0*2^(-1/12), e repetindo o argumento para k semitons acima, teremos que lk=l0*2^(-k/12). Essa é uma expressão exata para o posicionamento dos trastes, e você pode pegar o seu violão e uma régua e verificar se ele foi construído direitinho! sorriso Mas note que estamos de fato calculando o comprimento efetivo da corda reduzida pelos trastes, então lk é a distância do cavalete até o k-ésimo traste; se você quiser a expressão da distância pk medida a partir da pestana, então esta será pk=l0-lk=l0*(1-2^(-k/12)). Note ainda que ao apertar a corda em uma "casa" estamos efetivamente aumentando a tensão e subindo a afinação da corda. Um luthier cuidadoso levará esse efeito em consideração, reduzindo minimamente a distância entre os trastes (teoricamente "desafinando para baixo") para compensar essa subida de afinação.

No caso dos tubos com digitações simples, se quiséssemos colocar um furo novo para cada passo de 1 semitom, poderíamos usar a mesma fórmula. Obviamente nenhum instrumento de sopro segue esta lógica, pois precisaríamos de 5 mãos para conseguirmos tocar 2 oitavas! perplexo

Escrevi esse e-mail um pouco mais longo pois este assunto é realmente interessante e infelizmente não teremos tempo para desenvolver estas ideias dentro do curso. Existem vários livros legais sobre acústica de instrumentos, alguns bastante acessíveis e outros bastante completos. Vale a pena dar uma espiada na estante da ECA e folhear alguns deles e ver qual tem mais o seu perfil.

Abraços,

Marcelo

 

Em resposta à Marcelo Queiroz

Re: Exemplo de sala 11-03-13

por Marcelo Queiroz -

Um adendo que me pareceu importante fazer diz respeito à relação entre a propagação transversal da oscilação na corda e a propagação esférica da onda sonora no ar, porque isso tem potencial para causar grande confusão, especialmente se a gente começa a misturar despreocupadamente equações de contextos diferentes, como v=λf ou a expressão da velocidade de propagação de oscilações em cordas, v=sqrt(T/μ) onde T é a tensão da corda e μ é a densidade linear.

A primeira equação se aplica tanto à oscilação da corda quanto do ar, mas as grandezas envolvidas são distintas: vcorda = λcorda*fcorda num caso e vsom_no_ar = λsom_no_ar*fsom_no_ar; já a segunda se aplica exclusivamente à propagação longitudinal na corda (vcorda=sqrt(T/μ)). A velocidade da propagação na corda *não é* a mesma da velocidade de propagação do som no ar, bem como os comprimentos de onda são diferentes. Para ver isso imediatamente, considere que as 6 cordas do violão têm o mesmo comprimento e portanto suas fundamentais têm o mesmo comprimento de onda *na corda*, mas os comprimentos de onda da propagação sonora são inversamente proporcionais às respectivas frequências, e portanto distintos. O elo de ligação entre essas duas oscilações tão diferentes é a frequência, pois é o movimento da corda que impulsiona as partículas do ar, logo esta impulsão acontece o mesmo número de vezes por segundo tanto num meio quanto no outro.

É justamente por esta razão que a expressão da Lei de Mersenne (f = v/λ = sqrt(T/μ)/(2*l0)) faz sentido: o mais prudente seria escrever f som_no_ar= fcorda = vcordacorda = sqrt(T/μ)/(2*l0).

Abraços,

Marcelo

 

Em resposta à Marcelo Queiroz

Re: Exemplo de sala 11-03-13

por Renan Maiorano -

Obrigado Marcelo e Alexandre ...

Realmente o assunto é muito interessante ainda mais quando se tem curiosidade e gosta desse tipo de discussão. Dá pra perceber que todo o processo de construção e manutenção de um instrumento musical não somente o "dom" do fabricante e sim muito envolvimento matemático.

Tentarei dar uma aprofundada no assunto e qualquer dúvida posto aqui.

Abraços

Renan